terça-feira, 29 de maio de 2012

Atletas enfrentam batalha diária com os motoristas para pedalar nas ruas do DF

Correio Braziliense 25/05





Circula na internet o manifesto de um motorista que questiona o comportamento dos ciclistas. Em cima de uma foto com um pelotão no Lago Sul, que ocupa, além da ciclofaixa, a pista inteira ao lado, está escrito: “E os ciclistas, me respeitam?”. A imagem revela o desentendimento entre aqueles que, sobre diferentes meios de transporte, diariamente dividem — e brigam — pelo mesmo espaço.

Não é difícil presenciar uma cena que ilustre essa disputa nas ruas de Brasília. No início da tarde de ontem, enquanto os atletas Fabrício Lino, Gibran Magno e Henrique Andrade pedalavam pela ciclofaixa na altura da QI 02 do Lago Sul, um caminhão pipa da Novacap ignorou o aviso “Só para ciclistas” marcado no chão e estacionou no local para molhar as plantas. O jeito, então, foi desviar pela esquerda, fazendo, antes, um aceno com as mãos para alertar os carros que passavam.

Situações em que automóveis e a própria população utilizam o espaço dos ciclistas são comuns. “Às vezes, a ciclofaixa está suja ou esburacada e nós temos de avançar para a esquerda. Os carros não entendem, passam tirando fina”, comenta Henrique Andrade, lembrando que apenas o Lago Sul e o Lago Norte têm o espaço exclusivo para o esporte. “Eles ainda falam que é a fina educativa, para aprendermos que não devemos andar ali.”

E não é só isso. Além de terem de lidar com os sustos, os atletas, não raro, escutam xingamentos. Certa vez, enquanto voltava para casa às 7h, após ter pedalado por mais de duas horas, Gibran Magno foi chamado de vagabundo e orientado a procurar um emprego. “E o pior é que eu estava voltando apenas para tomar um banho e ir para o trabalho. Existe essa cultura de que só porque estamos ali, não fazemos mais nada”, lamenta o servidor público.

Prejuízos

Em 2009, Gibran por pouco não abandonou o ciclismo. Enquanto treinava na L4 Sul, pela faixa da direita — não existe o espaço esportivo na via —, um carro acabou o atropelando. Os dois meses de atestado, outro de fisioterapia, a clavícula e a bicicleta quebradas não foram os únicos prejuízos. “A motorista ainda queria que eu pagasse o amassado no carro dela. Precisei entrar na Justiça. Foi uma chateação enorme. No fim das contas, cada um arcou com a própria despesa”, lembra.

Grupos

Em uma competição de ciclismo de estrada, pelotão é o grupo de atletas que, em conjunto, se desloca à frente a fim de barrar o vento e facilitar o trabalho daqueles que seguem atrás. O termo também pode ser adaptado aos treinos, quando até mais de 100 atletas se reúnem para simular uma disputa.

“Como o pneu da bicicleta tem apenas 1 centímetro, passar por cima de buracos ou cacos de vidro é tombo na certa. Muitas vezes a ciclofaixa está em péssimas condições. Acham que estamos na pista porque queremos, mas não é. Estamos ali porque somos obrigados”


Erro reconhecido
Apesar de citar inúmeras situações em que são desrespeitados, os ciclistas reconhecem que nem sempre estão corretos. Segundo o Código de Trânsito Brasileiro, a bicicleta tem os mesmos direitos que qualquer automóvel — e ainda preferência sobre eles —, e, sendo assim, tem de cumprir as mesmas regras.

No entanto, isso nem sempre acontece. “Nós vemos muitos atletas pedalando na contramão. Eles acham que olhando os carros estarão mais seguros”, explica Henrique Andrade. “Além disso, alguns não param no sinal vermelho e, em um treino, fazem uma ultrapassagem de forma perigosa apenas para vencer”, reconhece.

Mas, no fim das contas, o que todos concordam é que deve haver um respeito mútuo. “Aqui tem médico, juiz, atleta profissional. Mas o mais importante: são pais de família e filhos”, argumenta Fabrício Lino, ciclista e professor de educação física. “Está na hora de todos entenderem que não é uma disputa. Cada um tem que dividir o espaço com responsalidade e cuidado.”

Palavra de especialista

Espaço rivativo?

Os motoristas tendem a se comportar como se o espaço da rua fosse privativo de quem tem motor. Apesar disso, o lugar do ciclista é no leito viário. O atleta, que está treinando, precisa de velocidade. Ele tem o direito de utilizar a via e, muitas vezes, é tão rápido quanto os carros. É importante ressaltar que, pela lei, a bicicleta é um veículo como qualquer outro, e, por isso, também tem de obedecer à sinalização e às regras.



Paulo César Marques,especialista em trânsito e professor de engenharia do tráfego da Universidade de Brasília (UnB)



sexta-feira, 20 de abril de 2012

Vôlei no Corjesu

Abriram 2 vagas no grupo de vôlei do Treinador Fernando Vaz às quartas e sextas das 20:00 às 22:00 no Corjesu.

Esse grupo de vôlei é voltado para jogadores com o nível intermediário e avançado. 

Quem se interessar, ligar para Rafael:(61)8113-0407 para agendar uma aula experimental.

Rafaella

sexta-feira, 13 de abril de 2012

Greve para obra de estádio de Salvador



Valor 13/04

Mais de 30 mil trabalhadores da construção pesada iniciaram ontem greve geral por tempo indeterminado em todos os canteiros de obras da Bahia. Entre eles está a Arena Fonte Nova, estádio que será utilizado na Copa do Mundo, em 2014. Cerca de 1,4 mil trabalhadores estão envolvidos na obra, segundo o Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Pesada e Montagem Industrial da Bahia (Sintepav). A paralisação também atinge as obras da Via Bahia, do Polo Naval e de ferrovias.

O sindicato patronal ofereceu um reajuste de 10% para todas as funções da categoria, o que foi recusado pelos trabalhadores. Os trabalhadores reivindicam um reajuste salarial de 13%, pisos salariais unificados nacionalmente, plano de saúde para empregados e dependentes, cesta básica de R$ 250 e acordo sobre o pagamento de horas extras. A data-base da categoria é 1º de março.

"As obras não podem ter como legado apenas a quantidade de concreto e aço que produzem. É preciso melhorar o perfil socioeconômico das pessoas na cidade e na região", disse o presidente do Sintepav-BA, Adalberto Galvão.

Segundo o sindicato, foram sete rodadas de negociação, sem acordo, desde janeiro, quando a pauta foi apresentada. O consórcio responsável pela obra do estádio propôs um encontro hoje com o sindicato para negociar um acordo coletivo para os trabalhadores do Fonte Nova. Os demais trabalhadores da categoria, segundo Galvão, permanecem em greve.

Em outros dois estádios que terão jogos da Copa de 2014 os trabalhadores também se encontram em greve. No Ceará, os obras no Castelão estão paralisadas há 11 dias. Os trabalhadores pedem reajuste salarial de até 25%, o que igualaria os seus rendimentos aos dos trabalhadores do Maracanã. Na Arena das Dunas, em Natal, a greve se estende há 12 dias. (CG)

quarta-feira, 28 de março de 2012

O presidente da República em exercício, Marco Maia, fechou na noite de ontem um acordo com a base aliada e a oposição para liberar a pauta de votações. Ficou definido que o projeto da Lei Geral da Copa será votado hoje no plenário da Câmara, enquanto o Código Florestal será votado depois da Semana Santa, em abril.

O próprio Marco Maia, que integra o PT do Rio Grande do Sul, retomará a presidência da Casa na tarde de hoje, devolvendo a presidência ao vice-presidente da República, Michel Temer, que retorna da viagem que fez à Coreia do Sul. "Dessa forma estancamos a crise e a negociação faz com que o Congresso volte a andar", afirmou o petista.

O acordo, porém, não envolve o mérito do Código Florestal. A bancada ruralista agora corre para conseguir obter apoio em torno de suas reivindicações. Ontem, seus integrantes recorreram à Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag), um dos pilares do governo e do PT nos movimentos sociais.

O relator do Código, Paulo Piau (PMDB-MG), teve uma longa reunião com o presidente da entidade, Alberto Ercílio Broch. Na discussão inicial na Câmara sobre o Código, a Contag defendeu a inclusão de um artigo que estabelece, nas propriedades com rios com até cinco metros de largura, a necessidade da recomposição de 7,5 metros em cada margem. Ele não entrou no texto final, mas Piau tem defendido que se faça isso numa legislação posterior e, uma vez aprovada, seja incluída no texto do Código. Os deputados, agora, só podem suprimir textos aprovados pelos senadores ou retomar o que estabeleceu originalmente a Câmara.

"Isso está ainda em maturação. Não há compromisso de nenhuma parte ainda" disse Piau. Se prevalecer, declara ele, poderia ser resolvida a questão das metragens mínimas para a recomposição das Áreas de Preservação Permanentes (APPs), prevista no artigo 62 do texto aprovado pelos senadores. Ele estabelece que, em propriedades com cursos de água com até dez metros de largura, a recomposição na margem deve ser de 15 metros em cada lado. Para rios acima de dez metros, a recomposição deve ser entre 30 e 100 metros.

Parte da bancada ruralista reclama que isso tornaria inviável a produção agrícola na maioria dos minifúndios do país e que é preciso restabelecer trechos da polêmica emenda 164, que consolida toda a área nas margens de rio e transfere a recomposição para posterior regulamentação pela União e Estados.

A Contag, porém, afirmou que só apoia a ideia se ela não for mesmo objeto de emendas ao texto que saiu do Senado. "Somos favoráveis ao que saiu do Senado. Se abrir espaço para muitas alterações ele pode ser desvirtuado", disse Broch. Seu receio é de que se houver abertura para modificações, elas possam ser estendidas a outros pontos.

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Para a CUT, está em curso um AI-5 da Copa



Por Fernando Exman  - Valor 28/02
De Brasília

BRASÍLIA - A Central Única dos Trabalhadores decidiu dar início a uma investida no Congresso para alterar o texto da proposta de Lei Geral da Copa. Em outra frente de batalha, a CUT tentará impedir a aprovação pelo Senado de proposta capaz de limitar o direito a greve de trabalhadores de setores considerados "essenciais" ao evento.

As propostas da CUT já foram apresentadas ao relator da Lei Geral da Copa, deputado Vicente Candido (PT-SP), e aos senadores autores do projeto de lei 728/2011 (ver quadro nesta página). Têm como objetivo garantir direitos dos trabalhadores. No entanto, poderão criar embaraços à Federação Internacional de Futebol (Fifa), Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e empresas envolvidas na organização da Copa de 2014 e da Copa das Confederações. A aprovação da Lei Geral da Copa é uma das prioridades do Executivo no Congresso e tem sido causa de atritos entre o governo e a Fifa.

"A Copa e a Olimpíada devem deixar um legado no país, inclusive nas relações do trabalho. Eles querem toda proteção para os investimentos deles, e nós que eles deixem um legado para a nação", afirmou o secretário de Relações do Trabalho da CUT, Manoel Messias. "Não podemos criar um estado de exceção durante a Copa."

Após seguidos impasses em relação a alguns temas polêmicos, a comissão especial criada na Câmara dos Deputados para analisar a Lei Geral da Copa deve votar a proposta nesta semana. Já o projeto 728/2011, apresentado pelos senadores Marcelo Crivella (PRB-RJ), Walter Pinheiro (PT-BA) e Ana Amélia Lemos (PP-RS) em dezembro do ano passado, tramita nas comissões de Educação, Cultura e Esporte, Desenvolvimento Regional e Turismo, Assuntos Sociais, Relações Exteriores e Defesa Nacional e de Constituição e Justiça do Senado.

O projeto dos senadores regulamenta a punição a crimes e infrações relacionados à realização da Copa das Confederações e da Copa de 2014, como terrorismo, falsificação de ingressos e credenciais e outras ações que possam prejudicar o desempenho dos atletas.

Os senadores também pretendem permitir que a Justiça, de forma cautelar, possa proibir que determinados indivíduos entrem em estádios de futebol por até 120 dias, reter passaportes e suspender as atividades de torcidas organizadas

A insatisfação dos sindicalistas é tamanha que o projeto chegou a ser apelidado de "AI-5 da Copa".

A ideia dos senadores é obrigar, em caso de greve, a manutenção de 70% da força de trabalho nos setores de saneamento básico, construção de estádios ou obras de mobilidade urbana, energia, telecomunicações e transporte. A regra valeria entre os três meses que antecedem a Copa de 2014 e a Copa das Confederações até o fim da realização dos dois eventos.

Representantes da CUT devem se reunir nos próximos dias com os autores do projeto 728/2011 para tentar modificá-lo. A princípio, não devem ter maiores dificuldades: o próprio Walter Pinheiro, líder do PT na Casa e um dos coautores da proposição, já disse concordar em rever alguns pontos da proposta.

"Vamos fazer uma conversa com a CUT. A intensão era evitar que num período tivesse um nível de fragilidade, mas não queremos impor restrições aos trabalhadores", ponderou Pinheiro, segundo quem o Executivo não influenciou a redação da proposta. "É importante que a gente tenha um pouco mais de cuidado para que não seja criado nenhum absurdo. Ficou um pouco excessivo o projeto."

Na Câmara, os principais interlocutores dos sindicalistas para esse assunto são os líderes partidários da base aliada e o relator da Lei Geral da Copa. Até agora, porém, apenas duas das sete demandas da CUT já foram acolhidas pelo deputado Vicente Candido. Nos próximos dias, o presidente da central sindical, Artur Henrique da Silva, e outros dirigentes da entidade deverão ter novas reuniões com os parlamentares para tratar do tema.

As duas propostas da CUT que devem constar do parecer de Vicente Candido são a que coloca à disposição pelo menos 50 mil ingressos para os jogos da Copa aos operários que trabalharem nas obras dos estádios e a inclusão do tema "defesa do trabalho decente" nas campanhas de publicidade oficiais do evento. "Queremos mais. Um compromisso retórico não é suficiente", disse Messias.

Uma outra sugestão da CUT tenta garantir o direito de livre exercício da profissão aos vendedores autônomos e ambulantes devidamente cadastrados pelas prefeituras das cidades que sediarão a Copa de 2014 e a Copa das Confederações, impedindo assim a imposição de restrições aos profissionais que não forem credenciados pela organização dos eventos. A central também quer que fique explícito na Lei Geral da Copa o pleno direito à realização de greves "a todos que estiverem de algum modo ligados às atividades da Copa no Brasil".

Os sindicalistas tentam ainda regulamentar o trabalho voluntário no período. A finalidade é evitar que a atividade reduza a oferta de empregos e promova a precarização do trabalho.

A cadeia de fornecedores, prestadores de serviços e parceiros comerciais da Fifa e da CBF também estão na mira da CUT. O texto de uma das emendas sugeridas pela entidade tenta proibir que essas empresas participem do evento se estiverem envolvidas em casos de trabalho escravo, infantil ou degradante. Os sindicalistas querem também que os contratos com essas companhias só sejam firmados após a apresentação de certidões negativas de débitos trabalhistas.

Depois de passar pela comissão especial, a proposta de Lei Geral da Copa seguirá para o plenário da Câmara dos Deputados. Em seguida, será analisada pelo Senado e enviado à sanção presidencial.



sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Trabalhadores em obras de estádios ameaçam entrar em greve em março

Valor 03/02

Os 25 mil trabalhadores que hoje estão à frente das obras dos estádios da Copa do Mundo de 2014 podem cruzar os braços em março, uma greve nacional capaz de comprometer o cronograma de conclusão das 12 arenas do torneio. A ameaça de paralisação é assinada pelas principais centrais sindicais do país, como Força Sindical, Central Única dos Trabalhadores (CUT), Confederação Sindical Internacional (CSI) e Federação Nacional dos Trabalhadores na Indústria da Construção Pesada, além de sindicatos estaduais que representam os profissionais da construção civil.

Até o dia 15 uma comitiva formada por lideranças sindicais das 12 cidades-sede estará em Brasília para apresentar uma proposta única de piso salarial e de benefícios para todo o país, independentemente de onde o trabalhador esteja. "Se não houver diálogo e não se chegar a um acordo, são grandes os riscos de realizarmos uma paralisação nacional", diz Adalberto Galvão, presidente do Sindicato dos Trabalhadores da Indústria da Construção Pesada e Montagem Industrial da Bahia (Sintepav-BA), vinculado à Força. "O setor amadureceu muito e hoje os trabalhadores da construção civil têm consciência de seu papel no crescimento do país. Essa é uma oportunidade única para diminuirmos parte das discrepâncias na distribuição de renda do país."

O Valor teve acesso à pauta de reivindicações que será entregue na reunião que deve ter a participação da Secretaria Geral da Presidência, do Ministério do Trabalho e Emprego e da Confederação Nacional da Indústria (CNI), além de sindicatos patronais. Os sindicalistas querem piso nacional unificado de R$ 1,1 mil para ajudantes de obras, profissional que hoje ganha cerca de R$ 600 na região Nordeste. Para carpinteiros e pedreiros, o pleito é de R$ 1.580, quando a média atual é de R$ 1,2 mil. A cesta básica requerida é de R$ 350. Os planos de saúde, muitas vezes limitados ao trabalhador, deverão ser estendidos às suas famílias. Quanto à hora extra, o pedido é que o percentual pago seja de 100% durante os dias de semana, diante da média de 50%, como acontece na maioria dos Estados. Finalmente, os trabalhadores querem folga de cinco dias úteis consecutivos a cada 60 dias trabalhados, para visitar familiares, com custo de transporte bancado pelas empresas.

A reivindicação para que haja um piso nacional para os trabalhadores, conforme defendem os sindicatos, se apoia no fato de que a formação de preço das licitações das obras é muito semelhante em todo o país, além das obras estarem concentradas nas mãos de poucas construtoras. "Queremos uma solução nacional. Não adianta mais beneficiar apenas um Estado, se os outros continuam em situação complicada", diz João Carlos Gonçalves, secretário-geral da Força Sindical.

A proposta de padronização do piso salarial dos trabalhadores em todo o país é a etapa mais sensível de um processo iniciado em março do ano passado, quando explodiu a revolta dos trabalhadores da hidrelétrica de Jirau, em Porto Velho (RO). De lá para cá, um comitê tripartite reuniu em volta da mesma mesa o governo federal, sindicatos e empresas para encontraram propostas de melhoria de condições de trabalho e segurança. Algumas promessas saíram do papel, com a extinção dos contratos terceirizados até então realizados pelas empreiteiras - evitando a famosa participação dos "gatos" nas obras - e a obrigação de contratação de pessoas cadastradas no Sistema Nacional de Emprego (Sine). A questão salarial, no entanto, não foi tocada.

"Temos a oportunidade única de resolver essas diferenças de renda de uma vez por todas. Não é mais possível que pessoas que estejam produzindo um mesmo tipo de obra fiquem sujeitas a condições totalmente desiguais", diz Nair Goulart, presidente-adjunta da Confederação Sindical Internacional (CSI).

Na prática, os sindicatos querem que o piso da classe seja ajustado a valores próximos aos mercados de São Paulo e Rio de Janeiro. "Um bancário ganha o mesmo salário-base no país inteiro. Por que não podemos ter o mesmo direito, se estamos tratando de obras similares e do mesmo grupo de construtoras e fornecedores?", pergunta Claudio da Silva Gomes, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção e da Madeira (Conticom), vinculado à CUT. "Esse é um momento crucial para o setor e é dessa forma que iremos tratá-lo. Se não houver acordo, uma paralisação nacional pode ocorrer sim, envolvendo inclusive outras obras de grande porte, não apenas os estádios da Copa."

Há alguns dias, os trabalhadores das arenas de Salvador e Recife estão paralisados. No ano passado, movimentos grevistas afetaram as obras no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Recife, Salvador, Cuiabá e Porto Alegre.

Para Nilson Duarte Costa, presidente da União Geral dos Trabalhadores (UGT) no Rio, a reivindicação nacional "é justa", mas ele coloca em dúvida uma paralisação de 100% das obras do país. "Sabemos que os salários pagos do Rio são o dobro dos salários de Fortaleza, mas isso foi conseguido com muita luta no Estado", comenta. "Continuamos lutando por melhorias por aqui, mas essa mobilização exigiria um grau de conscientização que, honestamente, ainda não vejo."

Estima-se que as obras de construção e reforma dos estádios vão consumir cerca de R$ 7 bilhões em investimentos. O cronograma mais recente prevê que nove arenas sejam entregues até dezembro deste ano. No caso de Manaus, o prazo é junho de 2013, enquanto São Paulo e Natal têm data para dezembro de 2013.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Obras de transporte da Copa não saem do lugar



Por Daniel Rittner e André Borges - Valor 26/01
De Brasília

A menos de 30 meses da Copa do Mundo de 2014, o legado para o sistema de transporte de suas 12 cidades-sede está definitivamente comprometido. Pelo menos 19 obras de mobilidade urbana que deveriam ter avançado entre setembro de 2011 e janeiro de 2012, conforme previa o último balanço divulgado pelo governo federal, tiveram o cronograma descumprido. A lentidão dos projetos fica ainda mais evidente quando as obras são confrontadas com os desembolsos de financiamento feitos pela Caixa Econômica Federal.

Maior agente financeiro dos empreendimentos de mobilidade, a Caixa liberou até hoje apenas R$ 194 milhões dos R$ 5,3 bilhões de empréstimos pedidos por Estados e municípios. A maioria desses financiamentos foi contratada entre julho e dezembro de 2010, mas a baixa qualidade dos projetos apresentados tem sido o principal motivo para que o desembolso atual seja inferior a 4% do total planejado.

"O legado será bem menor do que o esperado", lamenta José Roberto Bernasconi, presidente do Sindicato da Arquitetura e da Engenharia (Sinaenco) em São Paulo. "O tempo está passando e não vai dar para fazer muita coisa. Podemos acelerar obras absolutamente cruciais e realizar operações especiais, mas isso não é muito mais do que gambiarra, diante do que deveríamos ter."

Os gestores da Copa nas cidades-sedes ressaltam que muitos projetos de envergadura, como monotrilhos e veículos leves sobre trilhos (VLTs), ficarão como legado à população mesmo se forem concluídos somente depois do evento esportivo. No entanto, se a ideia era fixar um prazo específico para a entrega de projetos com forte impacto na mobilidade urbana de grandes cidades, o compromisso de concluir essas obras acabou se tornando algo bem mais relaxado.

Um dos casos emblemáticos é o de Manaus, que se prepara para construir um monotrilho com 20,2 quilômetros de extensão, ligando o centro aos arredores da Arena da Amazônia. Para ficarem prontas em maio de 2014, um mês antes do início da Copa, as obras deveriam ter começado em novembro de 2011. Enfrentam, no entanto, uma pilha de problemas. A licitação já foi feita, mas a Controladoria Geral da União (CGU) e o Ministério Público Federal (MPF) encontraram irregularidades no projeto básico, o que suspendeu as negociações de empréstimo com a Caixa. O licenciamento ambiental esbarra na resistência do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em liberar a passagem do monotrilho pelo centro de Manaus e o projeto executivo ainda não foi iniciado.

Com isso, o governo do Amazonas já trabalha com a hipótese de que as obras só terminem depois de 2014. O coordenador da unidade gestora da Copa no Estado, Miguel Capobiango, relativiza os prazos. "As festas do boi são realizadas em outubro, no sambódromo que fica ao lado da futura arena, e já chegaram a receber 180 mil pessoas em um único dia. Se algum trecho do monotrilho ficar pronto até a Copa, ótimo. Mas está tudo bem atendido com o transporte coletivo existente. A Fifa entendeu perfeitamente e considerou a nossa solução pertinente", diz.

Outras cidades, como Salvador e Cuiabá, trocaram em cima da hora os sistemas de transporte escolhidos. Ambas tinham projetado corredores de BRT, sigla em inglês para transporte rápido por ônibus, um sistema que inclui faixas exclusivas de tráfego, veículos com ar-condicionado, embarque na mesma altura da plataforma e com pagamento antecipado. Salvador trocou o BRT, que já tinha financiamento contratado, por uma nova linha de metrô. O governo da Bahia diz que ela só ficará pronta em 2015 -- a primeira linha, que ainda não entrou em operação, está sendo construída há mais de 12 anos.

Cuiabá optou por um VLT, conhecido como metrô-leve, muito mais caro e polêmico. Havia assumido o compromisso de iniciá-lo em março, mas a licitação só deve sair em fevereiro - dois meses depois do programado - e ainda vai passar por audiências públicas.
A construção de BRTs em cidades como Fortaleza e Porto Alegre também atrasou, mas suas obras podem avançar mais rapidamente do que outros sistemas e a demora é menos preocupante. A coordenadora técnica da Associação Nacional de Transportes Públicos (ANTP), Valeska Peres Pinto, faz uma advertência às cidades que pretendem usar esse sistema. "Se as encomendas não forem feitas logo, os corredores podem ficar prontos, mas eles são apenas parte do BRT. Há um risco de falta de ônibus", alerta.

O levantamento feito pelo Valor abrange 46 projetos de mobilidade urbana que constam da matriz de responsabilidades firmada entre União, Estados e municípios. O documento estabelece as responsabilidades de cada um dos signatários no que diz respeito à infraestrutura urbana para a realização da Copa do Mundo. Em 14 de setembro, o governo federal divulgou um balanço das obras, com um detalhamento sobre o cronograma que elas deveriam seguir nos meses seguintes. De lá para cá, 19 não cumpriram o calendário - início das obras ou conclusão dos processos licitatórios - e seis atenderam apenas parcialmente ao cronograma. Outras 14 obedeceram os prazos fixados. Sete obras já estavam em andamento.

O Ministério das Cidades, responsável pelo monitoramento dos projetos de mobilidade urbana para a Copa do Mundo, não atendeu aos pedidos de entrevista feitos várias vezes.

Um caso peculiar é o de São Paulo. Quando a matriz de responsabilidades foi assinada, em 2010, o Morumbi era o estádio com maiores chances de ser escolhido para a realização dos jogos. Por isso, a linha 17-Ouro do metrô era a única obra incluída na matriz. Com a troca do Morumbi pelo Itaquerão, o foco da prefeitura e do governo estadual passou a ser intervenções viárias na zona leste de São Paulo.

Mesmo assim, um dos três trechos da linha 17 - que será construída como monotrilho - foi mantido na matriz de responsabilidade, com a justificativa de que servirá para ligar o aeroporto de Congonhas à rede de trens da CPTM (estação Morumbi). O contrato com as empreiteiras responsáveis já foi assinado e as obras aguardam licença de instalação para começar. Apesar disso, podem não ficar prontas até maio de 2014, prazo definido na matriz e com o qual a Secretaria de Transportes Metropolitanos diz não se comprometer mais.